Divisores e oportunidades na segurança privada.


Em 1995 quando vi um amigo instalando os onze disquetes no seu PC, vi que se tratava de uma grande novidade e por isso despertou-me a curiosidade peculiar. Confesso que não era a minha praia a área de tecnologia, mas de alguma forma mágica me chamou muito a atenção.


A explicação que tive na ocasião do engenheiro amigo que o instalava era tratar-se da instalação do novo Windows 95, para mim foi um divisor de águas e de época. Confesso que a relação com “janela” me estranhou, no entanto, as coisas tomaram uma dimensão maior ainda quando ao final de sua instalação veio o Pacote Office em seu rastro. Quando me foi mostrado a sua interface de utilização e os recursos que essa ferramenta propiciava, lembro que fiquei num êxtase absurdo, pois de alguma forma, na minha ignorância ao tema, vi que seria uma novidade que poderia mudar o mundo, pois na minha cabeça começaram a explodir um volume absurdo de ideias que poderia explorar na área de segurança privada, sintomas talvez de um idealista convicto e apaixonado pela profissão.


Naquele mesmo dia ao término da minha jornada, a cabeça ainda num turbilhão, parei no Hipermercado Extra da Anhanguera na Lapa e fiz uma das maiores loucuras da minha vida, financiei a compra de um computador Compaq Presario com o Windows já instalado e de arrasto o Pacote do Office. Na época para mim era um valor absurdo, ainda mais sem planejamento financeiro ou consulta familiar, mas a oportunidade, de vez em quando, te coloca contra a parede e te fala ao ouvido que o medo é para os fracos.


Comprei, me arrebentei nos cinco anos seguintes, meu carro financiado foi apreendido por falta de pagamento, meu nome foi para a latrina do Serasa, mas antes o carro do que o meu “PC”.


A imersão que fiz nesta ferramenta, de forma autodidata, com tentativas e erros, formatações e reinstalações diversas, me possibilitaram o pleno domínio de todas as plataformas do pacote e me colocaram num patamar diferenciado na minha área e conectado com este universo.


Quando me refiro a diferencial é porque a minha geração de profissionais de segurança, com vasta experiência no trato de casos reais de graves ocorrências e vivência numa época privilegiada da inteligência no combate ao surgimento do crime organizado, não pode transferir suas experiências ou traduzi-las para essa nova tendência. Eu embarquei nessa “janela tecnológica” a muito custo e suor, ao contrário de alguns de meus colegas.


Ressalto também que era uma época onde a Segurança Privada no Brasil ainda era embrionária no desenvolvimento dos fundamentos e conceitos de segurança patrimonial e o acesso às certificações profissionais ainda era muito precário por aqui.


Fiz parte da primeira turma no Brasil, julho 1998, do curso preparatório para a certificação CPP – Certified Protection Professional promovido pela American Society For Industrial Security Chapter Brasil, não que tenha sido convidado, mas sim agraciado pelo meu chefe que me deu sua vaga, como disse oportunidades são assim e na ocasião nunca seria chamado, pois foi um evento destinado para um círculo muito fechado de profissionais, ainda sim obtive a segunda melhor nota da turma perdendo para um Nerd Sueco. A prova de certificação foi no México e aí me faltou forças financeiras, mas o traria com certeza se lá estivesse.


O conhecimento conceitual de segurança deste curso que estava inserido numa apostila de mais de 350 páginas em espanhol foi plenamente traduzido para o português e efetivamente aplicado em consonância com meu momento tecnológico.


Em 2010 numa outra oportunidade fiz uma passagem de alguns dias na Fábrica da Pelco Security Cameras em Fresno na Califórnia – USA, o objetivo além de conhecer suas instalações era discutirmos soluções customizadas para os shoppings sob minha responsabilidade e conhecer um novo produto que eram as soluções de hardwares e softwares integrados e 100% em IP – Internet Protocol, foi uma experiência maravilhosa e revolucionária.


Trazendo para os dias atuais explico o porque desta introdução, o mercado passa por um outro momento espetacular da janela tecnológica, com o advento das soluções de segurança integradas por plataforma IP, este sim é o grande divisor de águas na área de segurança privada. No entanto se trata de uma arquitetura muito específica e abrangente, não se limitando apenas às câmeras, mas a toda esfera que envolve a segurança de instalações, proteções de perímetros, controle de acesso, alarmes, rádios comunicadores e principalmente a inteligência analítica embarcada e este novo ciclo pegou o mercado deste setor de segurança eletrônica de “calças curtas” e que se encontravam acomodados aos sistemas digitais/analógicos.


A ruptura de cultura, que é diferente e muito mais difícil que a quebra de paradigma, para este segmento está sendo muito mais difícil e de certa forma refratária. Diante desta novidade que é o IP a ancoragem dos grandes fabricantes e distribuidores aos pequenos integradores ainda é extremamente necessária, com isso cria-se uma dependência corporativa para o suporte de pré-venda e alavancagem de suas ações comerciais, desde a construção de escopos de equipamentos até as justificativas de suas aplicações e “venda”.


Este suporte por sua vez fideliza/escraviza tal integrador a determinada marca e solução.


Hoje poucas são as empresas com autonomia de instalação de marcas diversificadas, pois ao derivar para outros fabricantes fecha-se a porta ao anterior.


Mas um outro ponto agravante desta nova janela tecnológica é que por ser muito específica e convergente às arquiteturas de rede de computação, muitas empresas do segmento de TI convergiram para a área de segurança, pois lhes é muito mais familiar do que para o integrador pequeno acomodado nas soluções plug & play dos sistemas analógicos/digitais.


Porém estes novos “integradores” com visão lógica de rede e sem qualquer experiência com a área fez surgir um, vácuo de segurança.


Explico aqui ressaltando a retórica inicial deste artigo, os profissionais de carreira que perderam a “janela” e por não compreender esta nova arquitetura IP e sua gama de soluções tecnológicas e sua aplicabilidade plena, pois lhe falta a base fundamental, não conseguem traduzir suas experiências e necessidades para estes profissionais de TI de forma que possam entregar o potencial da solução IP, além do medo ou receio que estes profissionais de segurança tem em transferir seu patrimônio intelectual e ficarem de certa forma desprotegidos.


Estes novos integradores de TI, por sua vez, num raciocínio lógico, diante dessa retração entregam soluções genéricas e na maioria dos casos caras e não funcionais, tendo como suas justificativas de inoperância na plenitude do sistema implantado, o discurso de que os agentes não sabem operá-los adequadamente e quando o sabem, não possuem a experiência na área de segurança para a aplicação correta dos recursos disponíveis e embarcados.


Esta lacuna de conhecimento versus a falta de experiência de campo leva a uma situação temerária, por exemplo: Consultores especialista em segurança que não dominam tais tecnologias recorrem a Integradores para concepção de escopo de equipamentos os quais estão abraçados a fabricantes/distribuidores e com isso a marcas específicas, além dessa fidelização à marca que inviabiliza a concorrência isenta, o diálogo entre eles é cercado de dúvidas, medos e autoproteção de ambos os lados, que por sua vez se traduz numa solução genérica a qual deveria ser customizada, personalizada e a preço justo, acompanhado de treinamentos, capacitação técnica e operacional.


Neste cenário todos perdem, mas o mais afetado ainda é o cliente final que por sua vez reage dizendo: “por que comprar uma Ferrari se não tenho quem a dirija”. E assim o mercado se vulgariza e se nivela por baixo.


Bernardino de Jesus

Consultor Sênior de Segurança

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Bernardino de Jesus  |  Especialista em Segurança Física de Instalações  |  BJ Assessoria e Consultoria de Segurança  |  011 99223-7529 

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